Memórias da Escravidão e o preço da Liberdade

Esta é sem dúvida a festa cristã mais importante do calendário litúrgico, mas poucos dão a ela a relevância que a mesma reclama. No Brasil particularmente no Nordeste, dois elementos se tornaram dominantes na tarefa de simbolizar a Páscoa: o chocolate e os espetáculos. Eu não quero diminuir o valor e a importância de nenhum dos dois principalmente do primeiro, mas obviamente que ambos são periféricos e nem se quer tangenciam os grandes desafios que esta época do ano evoca.

O chocolate não o faz, porque é uma tradição importada da Europa, que remonta ao hábito nórdico de dar ovos decorados aos amigos neste período do ano, e acaba falando mais ao estômago do que a alma. Já os espetáculos não o fazem, porque impressionam mais pela performance dos atores que naquele momento encenam um drama, do que pelo conteúdo das falas e vidas envolvidas.

Para compreender o sentido da Páscoa, precisamos nos reportar ao livro de Êxodo, ao instante mesmo em que ela foi instituída por Deus, através de Moisés (capítulo 12). Esta é uma passagem realmente dramática e cheia de importantes simbolismos.

O primeiro é que a Páscoa é uma ceia, alago que não se deve fazer sozinho, é um ato da coletividade, sobretudo da família. (É uma festa para ser celebrada entre os seus).

Em segundo lugar, ela é um marco entre o estado de escravidão e a liberdade que se anuncia próxima. Através dela recordamos dos dias que passamos sob os rigores da exploração, dos dissabores de uma vida sem sentido, a serviço dos interesses alheios, onde éramos vistos como máquina, números, contingente de manobra, de quando fomos feitos coisa.

Em terceiro lugar é preciso comer de pé e vestidos para partir como se dizendo que somos seres “de partida”. Se não há um signo supremo sobre o povo de Deus é este, eles estão “de partida”.

Mas o mais importante símbolo da Páscoa é o “Sangue do Cordeiro” que foi aspergido sobre os umbrais das portas das casas para que o anjo da morte não tocasse as famílias nelas abrigadas. A morte do Cordeiro nos livra da morte dos nossos filhos. Seu sangue do Cordeiro em nossas portas nos protege da visita da desgraça e da calamidade. O dia em que os cordeiros foram mortos no Egito foi o mesmo em que morreram muitos primogênitos. Filhos queridos, sacrificados para que um povo fosse libertado para que um coração fosse quebrantado, para que uma profecia fosse cumprida. É um preço caro demais. A liberdade tem um preço e é caro.

Esperamos que nesta Páscoa nós tenhamos tempo para lembrar da época em que éramos escravos e vivíamos perdidos, alheios à vida da graça em Cristo Jesus e nos recordemos que para que pudéssemos ter a paz com Deus que agora temos foi preciso que o Filho amado do Pai se entregasse em nosso lugar.

(Fonte: Rev. Martorelli Dantas – Devocionário Pão Diário).

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